Existem vidas que não pertencem aos seus donos. Que os outros as “roubaram” por algum motivo e que os fizeram perder o poder sobre ela. Às vezes não se vive, sobrevive-se.
Conheço alguns casos que me deixam bastante tocado, principalmente porque os conheço de perto. A F. é a protagonista de um desses casos. A pouca vida que tinha, foi-lhe roubada muito nova. De aspecto pouco cuidado e com baixa auto-estima, sempre viveu para os outros: para os pais cruéis, para um irmão tirano e para um sobrinho abandonado.
Nunca teve direito de ser feliz, até agora, nem a ter uma vida própria ou um namorado. De repente, caiu-lhe o mundo no colo. Perdeu o emprego que tinha, relaxou fisicamente e a dificuldade para encontrar outro emprego tem sido grande.
O seu grande coração consegue abarcar uns pais que acham que ela é uma escrava e o filho do irmão que foi abandonado por ambos os pais. O irmão não se interessa pelo filho e nem contribui financeiramente para a sua criação. A F. tem tomado conta do sobrinho como se fosse o filho que ela não tem. E ainda por cima, a criança teve alguns problemas que implicaram gastos extras com médicos especialistas e terapeutas.
Sempre que o irmão vai a casa dos pais, ela é escorraçada da mesa. Vai comer para outro lado qualquer, como se fosse um cão. E os pais permitem isto; é a distinção entre filhos na própria casa.
Costuma dizer-se que há quem cuspa no prato onde come. Neste caso é cuspir em cima de quem lhes dá de comer.
E agora pergunto eu:
Porque é que a vida tem de ser tão injusta?
Quem tem o direito de impedir que se viva a própria vida?
Podem dizer que são opções que se fazem mas eu não penso assim. São imposições, isso sim, pois não se tem escolha. Ou melhor, até pode haver escolha entre tomar conta ou abandoná-los à própria sorte, mas quem conseguiria viver de consciência tranquila?
E mais tarde, quando nós percebemos, a nossa vida já não nos pertence, são os outros que a comandam. Vivemos em função dos outros e esquecemos de nós, das nossas necessidades.
Eu sei que é fácil falar mas também temos de fazer um pouco por nós. Não podemos perder o controle da nossa vida! É que um dia os outros passam para outra dimensão e nós ficamos sozinho. E nessa altura, como minha mãe sempre diz: quem vai cuidar de nós?
Fikdik/
:*
